Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Cantar Português

 

Simone de Oliveira

Simone de Oliveira.

Eu adoro esta mulher

 

Estava a arrumar o meu canto de escrita e ao mesmo tempo a rever uns escritos que tinha feito e a tomar notas para mais uma das minhas histórias e criticas quando na revisão verifiquei que no último texto que para aqui debitei “A Voz de Portugal, ou não” para além da minha opinião sobre a falta de senso na RTP quanto à música portuguesa debitei um poema do José Carlos Ary dos Santos “O País (de Eça de Queiroz) e não debitei a canção propriamente dita mia culpa, mia culpa e então aqui fica esse poema interpretado pela Simone de Oliveira num dos seus concertos “Intimidades” que aconselho a comprarem o DVD.

 Já agora para mais uma achega aos mandantes da RTP1 aqui ficam mais dois exemplos como é possível fazer concursos com audiências em que a nova geração canta em português e quando se trata de terem apoio dos verdadeiros artistas, eles aí estão.

Simone de Oliveira apadrinhando dois concorrentes. Um até ganhou o no final.

 

“O País (de Eça de Queiroz) ” de Ary dos Santos e Nuno Nazreth Fernandes

“Desfolhada” de: Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes

Apoiando Pedro Ferreira o ganhador de “Uma Canção para Ti da TVI

 

 

“Sol de inverno” de Nóbrega Sousa e Jerónimo Bragança

Que apadrinhou o Francisco na “Operação Triunfo”

 

 

Para finalizar esta noite fico-me com as palavras do poeta 

 

E o mandarim morrendo

A tempo inteiro

Num país de rabichos e

Aldrabões?...

 

  Nelson Camacho D’Magoito

 

Estou com uma pica dos diabos: agora sim, vou deitar-me
música que estou a ouvir: Avé Maria do Povo de N.N.Fernandes
publicado por nelson camacho às 05:24
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A Voz de Portugal, ou não!

A voz de Portugal RTP

A RTP mais uma vez está a meter água

 com o meu dinheiro e o seu, pois vive à conta dos nossos impostos e taxas que liquidamos conjuntamente com a electricidade tenhamos ou não, televisão ou rádio.

Não sabiam? Pois fiquem sabendo que se você tiver um pequeno curral de porcos que como é óbvio tem que ter um contador de electricidade para fazer movimentar qualquer motor de extracção de água ou acender qualquer lâmpada para iluminar a porcalhota, na conta da electricidade lá vem a taxa para a RDP e para a RTP.

Pode dizer-se que também tem a publicidade, mas isso é outra questão.

O que me interessa aqui é gastar-se milhares de euros para promover a língua de sua majestade a Rainha de Inglaterra.

 

Não estou a ver na sua versão original “ The Voice” que tem a apresentação de Carson Daly cantarem qualquer canção portuguesa e muito menos em português é que alem de serem espertos não são parvos.

Numa altura em que os nossos(?) governantes até nos mandam exportar o “pastel de nata” apoiam incondicionalmente reality shows de formatos estrangeiros que até são bem pagos para divulgarem tudo o que é idioma estrangeiro menos o português falado ou tocado  e digo tocado porque os músicos que estudaram e muito, ficam em casa no desemprego.

 

Vamos aos factos:

 

1 - O modelo não é nosso. Até tenho saudades da “Cornélia” lembram-se. Ainda hoje andam por ai grandes artistas, escritores, músicos e encenadores que saíram desse concurso que foi uma ideia portuguesa.

2 – É um total embuste para as nossas gerações de possíveis cantautores pois são explorados nas suas fraquezas e debilidades humanas. Ficam normalmente agarrados a um sonho com consequências bastante gravosas às vezes até perante as famílias.

3 – Há quem diga que este tipo de concursos trás grandes vantagens para o entretenimento do Zé-povinho. No tempo do Salazar davam-nos futebol e fado. Agora é o inglês por causa das novas oportunidades no estrangeiro. Assim já podemos ir vender os pastéis de nata aos russos e os chineses vem-nos comprar as eólicas.

3 – Há também quem diga que os senhores pensantes da RTP desta vez até foram bastante criteriosos na escolha dos candidatos pois estes apresentam-se frente aos senhores juízes já formatados.

4 – Em vez de serem os candidatos a apresentarem-se a uma primeira audiência, não senhor, foram às redes sociais (You Tube) e escolheram-nos.

5 – Deu menos trabalho e gastaram menos dinheiro. Uma horas junto ao computador, uma chamada telefónica ou um e-mail e temos artista.

6 – Desde que cante em inglês, mesmo que não saiba ou sinta aquilo que está a dizer. Temos vedeta.

7 – As escolas de canto ou música já não servem para nada. Que saudades que eu tenho da Escola de Preparação para Artistas de Emissora Nacional ou até do Conservatório Nacional.

8 – No tempo do “botas” para se ser profissional das cantigas ou da música era preciso ter uma carteira profissional passada pelo sindicato respectivo depois de ser comprovada a sua futura profissão, onde se pagavam impostos. Há muitos cantores a músicos que hoje estão reformados derivados aos descontos que fizeram no seu tempo enquanto artistas de variedades ou músicos.

9 - Depois de escolhidos sabe Deus por quem ali vão botar figura de costas (esta é só para nos enganarem) aos seus futuros mentores. Ali o que interessa é a voz, ou seja o ritmo da música, porque os pontapés na gramática as sensibilidades que tem de nos ser transmitida pelos trejeitos faciais, isso não interessa. Ouvir um Gilbert Becaud ou um Elton John ou um qualquer Zé da esquina dizer de karaoke para eles é a mesma coisa. É como ouvir um ceguinho na rua do Ouro a cantar Tony de Matos.

 

Agora vamos ao espectáculo em si.

 

Sim senhor, tudo bem. Até tenho gostado não fora a falta dos músicos. Estes fazem as gravações ou não. Cá para mim aproveitam os playbacks e os desgraçados dos profissionais que gastaram rios de dinheiro e dedos para aprenderem a nobre profissão, ficam em casa a coser as meias.

Quanto à apresentadora Catarina Furtado lá vai fazendo o seu papel uma vezes com graça outras não tanto, mas pelo menos é boa!

 

Agora os Mentores:

 

Independentemente das guerrinhas que vão fazendo entre eles para animar as hostes, deviam ter vergonha na cara. (este é forte mas tenham paciência. Eu explico já).

Acho graça quando eles, todos, se queixam que a nossa rádio não passa os seus discos que a malta da internet os copia, que a comunicação social, principalmente a escrita não fala deles que não há promoção dos nossos artistas como havia antigamente por exemplo a “Plateia” e o Rei e Rainha da Rádio, o “Comboio da Seis e Meia” O “Passatempo Pac” “Os Serões para Trabalhadores” e outros tampos programas de variedades para divulgarem os seus dotes, apadrinham novos possíveis cantores esquecendo-se da sua língua.

Não me venham dizer que é com o fito da internacionalização pois isso é uma falácia. Os grandes nomes da nossa música ligeira lá fora tem conseguido grandes êxitos a cantar portugês e não é só no fado.

Em Portugal está tudo às avessas. Actualmente para se conseguir um certo statos no meio artístico ou tem que se ser gay ou cantar em inglês.

Tenham tento e não lixem mais isto do que é que está.

Deixo-vos com um poema de José Carlos Ary dos Santos & Música de Nuno Nazareth Fernandes, soberbamente interpretado em português pela nossa Simone de Oliveira “ O País (do Eça de Queiroz)”

 

 

A relíquia que eu trago

No meu peito

Herdade de uma tia patrocínio

É o País – País onde me deito

Sem culpa mas também

Sem raciocínio

 

O Conselheiro Acácio bem me disse

Nos tempos em que eu era

Pequenina:

“ - O Padre Amaro É mau. Mas que

Chatice!

Não pode um padre amar

Uma menina?...”

 

E o meu primo Basilio Brasileiro

Que foi o pai das minhas

Sensações!...

E o mandarim morrendo

A tempo inteiro

Num país de rabichos e

Aldrabões?...

 

Carlos da Maia meu primeiro amor

Primeiro livro meu primeiro beijo.

Os Maias da cidade não dão flor

E as Maias. É no campo

Que eu as veja

 

Ramires à uma casa ilustre e vasta

Pindéricos Raminhos da pobreza

A terra portuguesa

Ainda não basta

Para as courelas

Todas da avareza!

 

E o Conde de Abranhos parlamento?

E a Vera Gouvarinho a Baronesa ?

Mudam-se os tempos

Mas não muda o vento

É sempre rococó à Portuguesa!

 

Há cem anos que eu canto

Esta canção

Sem cabeça. Porém com coração.

Porquê o País do Eça de Queiroz

Ainda é… O País de todos nós!...

 

  

  Nelson Camacho D’Magoito

Estou com uma pica dos diabos:
música que estou a ouvir: O pais de eça de queiroz
publicado por nelson camacho às 00:57
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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

A Minha Cidade

 

A Noite de Lisboa

Sexta-Feira 13

 

     Há trinta e cinco anos o Mundo ficava mais rico. Por graça de Deus e pelo prazer de dois seres nove meses antes, lá vinha mais uma carga de trabalhos.

     Naquele dia houve choros e alegrias. O mundo podia contar com mais um ser macho para gáudio dos seres humanos sempre à espera de mais um D. Sebastião que venha com ideias para melhorar este planeta tão conturbado.

     Dentro destes tempos que distam trinta e cinco anos cresceu, estudou e escolheu a sua forma de vida com base nos valores que lhe foram incutidos por uma só mentora.

 

     Alguém tinha ficado à porta de acordo com um papel da justiça, ficando durante todos estes anos ao sabor da saudade e do afecto que uma criança dá e recebe.

     Aquele ser foi crescendo nunca tendo tido a percepção do que é uma família convencional.

     Procurou exemplos de vida nos que mais perto estavam passando esses a serem os seus verdadeiros familiares.

     Assim tem sido ao longo de todos estes anos de saudade.

     Naquele dia treze, talvez por calhar a uma sexta-feira tivesse a solte de estarmos juntos, mas não. Às oito e trinta da manhã, um telefonema de parabéns. Recorda-lo que o tinha agarrado pela primeira vez quando veio ao mundo. Mais uma pequena conversa de circunstância e desligou-se o telefone.

 

     Estava ainda remoendo aquela conversa e as ideias que me tinham vindo à mente quando tocou o telefone. Atendi e do lado de lá era uma minha amiga a convidar-me para ir passar o fim-de-semana com ela.

     Há momentos na vida que necessitamos de ficar sós e fazer uma outra mentirinha. Agradeci e disse não poder ser, pois iria passar o fim-de-semana com ele. Ela descobriu logo e só perguntou se ele fazia anos. Não foi preciso falar de quem se tratava para confirmar e desliguei o telefone.

 

     Ainda não tinha tomado o pequeno-almoço e fui preparar uns ovos mexidos e um copo de leite, peguei em tudo e fui tomá-lo no quintal que deita sobre a cidade e lá ao longe vê-se o mar. Lá em baixo ficam os seus hospitais, as suas prisões, as suas morgues, os seus cemitérios, igrejas, calabouços, penitenciárias, hospedarias e albergues, docas, oficinas e quartéis. Seus bairros magníficos e seus bairros pobres. Lá moram os que se embebedam e os que esmolam, os que têm dinheiro, os que não têm trabalho e os que se portam mal.

     Os telhados amontoam-se e o sol, que agoniza para lá da barra, põe grandes retalhos de ouro fulvo no agrupamento regular e caprichoso dos edifícios e moradias, afogueando o horizonte num clarão de aurora.

     Balança-se no ar pesadamente uma fumarada espessa como um nevoeiro, feita de mil suores, mil respirações, mil hálitos diferentes, desde o hálito do bispo ao do bêbado, do órfão ao do mendigo, do cocheiro ao do sacerdote. E como o fumo, paira no ar o Babel dos ruídos, um rumor confuso feito do ralo das agonias ao estrupido das pragas, do das cantigas ao das disputas. O ruído das máquinas que rangem, chaminés que resfolgam, peitos que respiram, olhos que choram, gargantas que soluçam, corpos que tombam. O desabrochar das violetas nos canteiros e das rosas nas jarras dos salões, subtil como um aroma, mistura-se com o ruído tamborilado e convulso, como um rufo de pandeiro, das carpideiras de enterro.

     Os gritos e as pragas dos vencidos baralham-se com as exclamações de triunfo dos vencedores.

     E quantas cidades têm o mundo? As cidades quantas almas? As almas quantas tragédias?

     Toda a gente tem em si a sua tragédia. As próprias coisas mudas, a lama, o pão e o vinho, a pedra da calçada, a labareda e a gota de água, o verme e a planta a têm.

     Pensaste alguma vez na tragédia de uma cama de hospedaria, na das enxergas dos hospitais, na de uma ladra, de uma mortalha ou de uma camisa de rendas? Na tragédia das bandeiras esburacadas de mil batalhas, na dos afogados no alto mar, na dos violinos, na de um náufrago da Medusa ou na da princesa de Lamballe? Tudo é tragédia desde a tragédia do parto à tragédia do estertor.

     Quem poderá saber a que há na flauta de um pastor e no leito de uma rainha? A tragédia que houve na alma de Vaillant o anarquista, e na de Tintoreto o pintor? A de Alexandre o grande e a de Sócrates o estóico? Na alma de Jesus e na alma de Marat? Quem sabe o que vai na alma dos clowns e na dos pescadores? Na dos loucos e na dos maus?

     A tumba dos pobres, o carro celular, a vala, a serapilheira, o caixão, as costureiras, os vagabundos, as cigarreiras, os emigrantes, os degredados, os cavadores, os homens de génio, as que têm leite nos peitos, as que arrastam um coração sem amor, os ninhos abandonados, tudo, de tudo isto quem sabe a sua tragédia?

     E a tragédia das que têm livro as quais a polícia rouba e o amigo espanca?

     Hamlet cismou na tragédia da caveira. Quem cismará agora na cidade?

     O corpo de uma cortesã tem a mesma tragédia do que um prato de hotel ou um copo de botequim. Por todos servidos, por todos usados, o prato e o copo quando se partem o seu destino é o lixo. A mulher quando envelhece e morre, o seu destino é a vala. Não serão pois, copo, prato e mulher inteiramente iguais?

     Algumas vezes a tragédia é caricata, é pândega, dá vontade de rir. Mas nunca ninguém riu da que consigo arrasta.

     A cidade, como a vida, é ignóbil. Ali tudo se vende. Quanto custa uma virgindade?

     A glória? A fama? Um beijo? Uma alma? Um jantar? Um enterro?

     Quem é o senhor do mundo, senhor da cidade, senhor da aldeia, senhor do campo?

     O Dinheiro. É ele que faz cantar às almas as óperas da torpeza e do interesse. É essa lama bendita com que se compra o céu. Para o alcançar todos os dias o sol vê crimes inauditos e a humanidade se afadiga e sua e chora. Não há crenças, nem escrúpulos, nem religiões. É aquela luta brutal da tela de Rochegrosse.

     A honra? A honra é uma fórmula. É pagar uma letra no seu prazo com dinheiro que se ganhou a traficar escravos; é ser torpe sem que ninguém o diga; é roubar sem que o roubado acuse.

     Há mulheres sem honra que todos cortejam, virgindades imaculadas que todos desprezam.

Religiões? A religião é uma comédia cuja representação já dura há séculos. Fez sucesso!

     É uma coisa fútil e extravagante que se parece com as histórias dos gnomos e das princesas encantadas. Quem a não tem, compra-a. Para que servem os padres senão para vender a Deus por grosso e a retalho? (Emílio Zola)

     Relicários, cultos, milagres, o céu, bênçãos, mitras, báculos, tudo isto está em leilão.

     Quem oferece? Quem dá mais?

     Às vezes as religiões apregoam entre os homens o Bem, a Paz e a Igualdade. Mentira, tudo mentira! Olhando bem a vida lá está sempre no fundo a sua face austera e verdadeira uma Saint-Barthélemey.

     Que tragédia risível, grotesca, bizarra, medonha, sofrida, desesperada e lancinante não é o mundo? A vida? A cidade?

     Lá em baixo nas vielas sujas ou no boulevard caro, a luz do gás, que baila a dança de São Vito, põe lívida a carne, lívida a alma, lívido o sentimento.

     Há lá ruas inteiras de toleradas, ruas de loiras perfumadas de falas lânguidas como fúcsias, de morenas de beijos tão doces como medronhos, de ruivas de cabelos tão fulvos como o poente. São as filhas dos operários que espancam as mulheres quando chegam à noite a casa, perdidos de bêbados; são as filhas de um ventre que não tinha nome e cujo pai é toda a gente; são aquelas, que tendo vendido tudo se vendem afinal; são a legião enorme e interminável das nascidas não se sabe como, paridas não se sabe aonde, as filhas das ervas, filhas da rua.

Nos bancos sombrios do square há vultos enigmáticos, suspeitos, órfãos cujas almas são os imãs da desgraça de todo o mundo, e à esquina das ruas pedem esmola velhos patriarcais como castanheiros centenários, filhas que fugiram aos pais pelos amantes que as abandonaram, pais que os filhos expulsaram de casa, mulheres que outrora foram belas e faladas.

     Embuçada num portal uma criaturinha esguia e franzina como uma santa, silenciosa, estende a quem passa a mão afilada e transparente e todos se afastam com rancor enquanto ela lá continua, no olhar a nostalgia das que passam os dias a tossir.

     Há carnes nuas que o frio corta e a nortada arroxeia a par de equipagens arrogantes mais brunidas que a água cristalina; vestes roçagantes e sumptuosas, arminhos e púrpuras, crachás e andrajos. Passeiam na mesma rua a majestade e o andrógino, a bêbada e a duquesa, e encontram-se muitas vezes no mesmo olhar os olhos que são alvoradas e os que são crateras sempre em perpétuas erupções de lágrimas.

     E na sombra, há criaturas emagrecidas pelas privações, recantos sinistros de infâmia onde a luz debuxa, às vezes, a traços esguios e esqueléticos, uma caricatura que em lugar de rir faz arrepiar; há gestos de revolta, meio esboçados, repelentes, grotescos, divinos, punhos erguidos, caras crispadas, criaturas capazes de agatanhar os pais e lhes arrancar os olhos para castigo de as ter feito vir ao mundo.

     E pensa a gente se foi só para todo este lodo, para esta amargura, que sofreram todas as mulheres as dores do parto.

     Bizarramente, ao longe, silenciosa e erma como um túmulo, esgarça-se a brancura de uma casita abandonada, e mais distante, na solidão de uma encosta verde, umas árvores com o seu reumatismo eterno, descarnadas, com seus troncos como aranhas monstruosas são tristes como a noite e como a desolação.

     O sol agoniza e a sombra que desce lentamente amortalha a terra com o seu manto funerário. Depois surge no céu a lua, muito grande, branca como a face de uma defunta ou ensanguentada como a cabeça dos guilhotinados. Então por toda a terra se eleva o choro das ribeiras soluçantes, o cicio longo das folhas que se abraçam, enquanto distante um ou outro galo perdido solta o seu grito de alarme como o das sentinelas à volta das prisões.

     E eu, debruçado sobre a cidade, escuto o seu respirar e sinto elevar-se da treva densa que abraça o mundo, num surdo fervilhar, o arfar de mil opressos peitos que mal respiram e que semelham o ralo estertoroso de mil agonizantes.

 

          A Minha cidade é assim. Está sem alma e sem gentes

 

  Nelson Camacho D’Magoito

Estou com uma pica dos diabos: agora sim! estou bem.
música que estou a ouvir: A Minha Cidade (de Paco Bandeira)
publicado por nelson camacho às 19:00
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

Um texto ao acaso

logo o canto do nelson

Um texto ao acaso

 num tempo que sobra na vida.

 

Já eram para aí uma meia-noite quando alguém que tinha estado a ler textos meus que vou debitando aqui e ali na internet perguntando-me se não estaria interessado em escrever para eles (uma editora de livros) inclusive um guião para um filme pois tinha acabado de ver na RTP um filme de Almodôvar “ A Lei do desejo” e a forma como eu escrevia e os temas que abordava (a vida tal como ela é) se coadunava para ser um segundo Almodôvar.

Como é natural fiquei satisfeito e disse que era um caso para ver.

Que estava sempre pronto para segurar qualquer oportunidade. Fiquei de telefonar a combinar o encontro.

 

Não tenho a veleidade de me considerar um escritor mas sim um contador de histórias da vida misturadas com algumas críticas, embora só o faça quando me dá na real gana.

 

“Todos os textos que se dignem ser lidos são escritos por vontade própria e nunca por imposição.

Nelson Camacho”

 

 

Este pensamento que de repente me saltou da tampa, poderia servir de discussão académica para os meus leitores mais astutos e atentos.

Ora vejamos;

      Quem escreve por impulso, escreve o que lhe vai na alma no momento em que se lança com a pena ao papel, ou agora mais simples, ao teclado de um computador qualquer.

     Quem escreve por obrigação, inventa não sobre a sabedoria que ganhou ao longo da vida mas sobre temas que viu no cinema ou em qualquer novela. Altera-lhe o conceito, as personagens e normalmente é a desgraça que nos entra pela casa dentro em forma de Telenovela ou um livro que foi bem publicitado mas que ao fim e ao cabo a trama da história é igual à de tantas outras com enormes falhas pelo caminho.

     Quem não viveu uma vida de escadas e ruas íngremes que se nos deparou ao longo dos anos não pode de forma algumas escrever por imposição.

 

     O acto de escrita tem de ser a transcrição correcta dos passos da vida, nossa, ou dos mais perto estão de nós ou ainda oriunda da leitura de factos históricos reais ou que foram manuseados ao longo dos anos.

     A escrita, para o leitor, tem forçosamente de logo nas primeiras linhas despertar o interesse da pessoa a quem ela é dirigida. É como o cantor ou o fadista, se não disser as palavras com correcção e bem silabadas o ouvinte por mais atento que esteja, fica-se pela música e o poema fica-se pela vontade de quem o interpretou. É o que acontece na maioria das pessoas que vão a São Carlos assistir a uma ópera, (a maioria vai porque é fino) e de lá só trazem no ouvido parte de uma ou outra Área porque quanto à história, que normalmente é cantada em Italiano ou Alemão, ninguém percebe. Alguns nem se dão ao trabalho de ler o libreto que lhes é facultado á entrada. Já tenho visto muito boa gente durante a sessão a utilizar o impresso como abanico.

     Todos nós em determinado momento temos recordações de um passado ou outro e vontade de o divulgar? Se tiver engenho e arte para o fazer em termos de ficção, dando-lhe por vezes uma roupagem um pouco diferente e acontece um conto, uma história, um poema até às vezes um romance. Muitas vezes como nós gostaríamos que tivesse acontecido e não o que aconteceu na realidade, então alteramos as personagens e a nossa alma fica mais liberta até de fantasmas que nos atormentam.

 

     Contar a verdade? A verdade verdadinha? Mas quem quer saber? A verdade nem sempre é a mesma para cada um! Dizem-se coisas e fazem-se coisas na vida porque nos dá prazer ou porque seria-mos postos no trabalho e na sociedade hipócrita que nos rodeia.

     O Cantor, o pintor, o músico, o ensaísta, o político ou um simples trabalhador, não pode dar a sua opinião por mais que ache ser ela a sua razão.

 

pobreza no mundo

A quem interessa o que tem fome? A quem interessa quem fica desempregado ou abandonado a um canto de uma qualquer esquina da vida?

     Não vale a pena contarmos a nossa vida nem a um amigo porque se precisarmos, ninguém nos dá nada. Nem um afecto, nem dinheiro para uma despesa mais carenciada. A desculpa é sempre a mesma “Quem precisa, precisa sempre e quem dá não pode dar sempre”

     Vivemos num tempo de consumismo tão voraz que Portugal já é um paraíso para as grandes marcas. Veja-se a nossa Avenida da Liberdade – que de liberdade só tem o nome – se estão a instalar os grandes senhores da inquisição consumista. – Voltem Capitães de Abril, estão perdoados –

     Quem tem uma casa de luxo, logo aparece outro a querer uma maior, Quem tem um novo carro, vai logo comprar outro maior.

Já perdemos o amor às coisas, às pessoas e ao nosso país que já está na banca rota por causa dos senhores sentados no puder.

     Cada vez há mais Boys, carros de luxo, altas remodelações nos seus escritórios, apartamentos de luxo onde só ficam uma ou duas noites por semana com as suas amantes pois as suas residências oficiais ficam além de cinquenta quilómetros do seu local de trabalho. Os subsídios que ganham para estes casos, davam muito bem para dormirem num hotel. Mas como somos nós que pagamos está tudo bem.

 

Lembro-me de um texto de Albino Forjaz de Sampaio onde escrevia:

 

“ (Um conhecido disse-me um dia:

Tu vais por uma rua com teu pai, teu irmão, qualquer pessoa que te seja mais que a luz dos teus olhos. Ao meio da rua há um prédio em construção. Tu separas-te por qualquer motivo de teu pai seja e ele vai andando. Quando passa pelo prédio, um andaime vem lá de cima despenhado e esborracha o velhote. Junta-se gente, tu chegas, e quando o vês num lençol de sangue, o teu primeiro pensamento será juro-o. E se eu venho com ele?!...

Eu  concordei!)”

 

     A verdade verdadinha o que me apetecia escrever nesta altura não era bem isto, mas como aquele amigo que me telefonou a convidar para voos mais altos, talvez a partir deste texto ao acaso no tempo venha a servir de preambulo para um discussão mais ampla.

 

     A pobreza neste país que adoro, cada vez é maior infelizmente, já não só a do alimento da barriga também é a intelectual.

 

     Veja-se o Programa da RTP1 “A voz de Portugal” que devia chamar-se “a voz de Inglaterra”.

     Então os senhores, Rui Reininho, Mia Rose, Os Anjos e Paulo Gonzo não teem vergonha de colaborar num programa da RTP – a nossa televisão, paga pelo pagante cidadão – em que se defende um idioma que não é nosso?

 

     Como é possível estes aprendizes a cantores interpretarem poemas que não entendem?

Uns decoraram as letras para as debitarem mal e porcamente, outros até se dão ao desplante de as escreverem num idioma que não é seu. Para se escrever em inglês em francês em italiano ou russo é preciso não só aprender a gramática mas a alma das suas gentes e o verdadeiro significado das coisas. Por vezes nem o estrangeiro que vive noutro país o entende.

     Os portugueses teem um dos idiomas mais velhos e mais ricos do mundo.

     Eu sei que o dizer “amo-te” em português num texto, num poema, numa letra de canção ou num fado ao ouvido, é um pouco estranho. Mas porra, é a nossa língua e há outras formas de dizer a mesma frase no mesmo contexto.

     Estes senhores andam a enganar-se a si próprios e depois é o que se vê, tão depressa se levantam como dão um trambolhão dos diabos sendo o pior, não os sonhos que se perdem como por vezes vidas e as dignidades porque se obrigam a fazer coisas que a gente sabe para atingirem as ilusões. é o palco da vida que não é para todos, é só para alguns.

 

Acho que o nosso governo deve vender o mais depressa possível o canal da RTP1. Já agora vendam-na aos chineses.

 

  Nelson Camacho D’Magoito

Estou com uma pica dos diabos: Bem felizmente
música que estou a ouvir: Eles comem tudo eles comem tudo
publicado por nelson camacho às 22:02
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Ninguém pode ser privilegiado, benificiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.
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