Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Uma avó toda moderna - I Parte

 

avó casamenteira

 

 

I Cena

     Há três dias que não sai de casa. A coisa já andava mal. O temporal por estas bandas não parava. Chovia torrencialmente de tal forma que sair de dia dó por obrigação e á noite nem pensar.

      De repente sabe-se lá porquê o São Pedro, pelo menos nesta zona fez um descanso e a manhã, talvez por ter mudado a hora, nasceu com um sol brilhante como à muito não se via. Aguardei pelo meio-dia para ver se a aguentava, fiz o almoço aguardei pelo telejornal e pela novela que acabou mais um episódio sem adiantar fosse o que fosse. Entretanto o tempo tinha de facto melhorado. Estava um Sol radioso, sem vento. Tomei um duche, desfiz a barba, vesti um camisolão de gola alta, meti-me no carro e fui até ao bar da praia cá do sítio.

     Parecia um dia de verão, quente e a esplanada cheia de rapaziada e casais da terceira idade. Assim que me dirigi ao balcão para pedir o cafezinho da praxe, veio logo o meu amigo Carlos «com quem já tínhamos tido um caso» cumprimentar-me e com aquele ar de sacaninha fazer a observação que já não me via há mais de oito dias.

        - Mas sabes onde moro e tens o meu número de telefone! Dei logo a resposta.

        - Pois. A última vez que lá estive já lá vão quinze dias e já tinha saudades e se não telefonei entretanto foi porque tenho tido problemas com a família, mas entretanto podias aparecer por cá!

        - Com o temporal que tem estado quem é que vai sair de casa? - Desculpei-me -  Mas hoje se quiseres, venho-te buscar.

        - Hoje não posso. Tenho o aniversário do meu pai e há festa lá em casa, mas amanhã estou de folga e podemos curtir.

        - Se assim o entenderes, até podemos aproveitar para ir ao Centro Comercial a Cascais, ver um filme e depois vamos curtir para minha casa.

        - Fica combinado. Eu telefono-te quando acordar pois esta noite vai ser até às tantas.

     Assim ficou combinado! Não adiantámos mais conversa, para não dar bandeira pois o local estava apinhado de gente. Peguei no café que o Carlos me serviu e fui para a esplanada. Haviam duas mesas vazias, uma a um canto e outra mais para dentro onde o sol não batia tanto. Pequei no jornal da casa e comecei a ler as grandes que também são a sempre a mesma coisa, principalmente o Correio da Manhã que é só desgraças. Entretanto ia dando uma olhadela a quem entrava e até com um pouco de inveja de alguns corpos que por ali se iam deambulando, olhando para mim já na entrado dos cotas, relembrando-me o corpo e juventude que já tinha tido. Hoje já só com muita sorte e com muita lábia consigo arranjar quem me ature.

     Estava com estes pensamentos maléficos quando vejo entrar uma velhota ai para os seus sessenta anos acompanhada por uma miúda aí para os seus dezassete que vinha acompanhada de mãos dadas com um rapaz que não teria mais de dezanove anos. Vinham os três como em fila indiana. A velha á frente, seguida da rapariga que puxava a mão do rapaz.

     Quando passaram por mim olhei bem para o rapazito, de olhos verdes, cabelo louro a aparentando ser bem constituído. Ele já tinha dado de olhos com os meus desde a sua entrada e assim que ficou mais perto de mim, fixou-me bem e eu descaradamente pisquei-lhe o olho ao qual ele correspondeu com um sorriso aberto. Foram sentar-se no tal canto vazio e notei algo de estranho. A velhota não se sentou a moça queria sentar-se em uma cadeira que ficaria frente a mim, mas o rapaz foi muito explicito e encaminhou-a para o outro lugar ficando ele frente a mim. A velhota não ligou e encaminhou-se para o balcão que fica destro da esplanada. Entretanto reparei que quando a rapariga queria segurar nas mãos do rapaz, este afastava-as e olhava para mim. Estava a passar-se algo de estranho, embora eu seja um tipo bem-apessoado já estou na casa dos cotas e não tenho nada em mim que na primeira observação se diga que gosto da fruta a não ser quando entendo fazer um engate e talvez tenha sido o caso ao dar aquela piscadela de olho ao moço.

     Entretanto chegou a velhota com uma imperial que vi ser para ela e duas Coca-Cola de lata para os dois.

     Estive algum tempo a observar a cena. Conversavam os três. A Velha deliciava-se com a cerveja, a miúda tentava colocar as mãos nas mãos do rapaz e este fugazmente ia olhando para mim. Eu não me sentia bem nem mal, sentia simplesmente que estava a ser galado pelo puto.

     Pensamentos não estavam acabados quando ouvi um sussurro junto a mim dizendo:

        - Estás a ser galado pelo puto ou és tu que o estás a galar?

     Era o Carlos que vinha trocar de cinzeiro e me bichanava ao ouvido.

        - Nota-se muito? Disse eu um pouco assustado.

        - Não para quem não entende mas para tipos como nós, nota-se à légua.

        - Estás com ciúmes?

        - Não porque sei que gostas de mim e sou muito melhor que a criancinha mimada.

        - Mimada como? Conheces?

        - Sim conheço! É um puto muito rico que a velhas se anda a pendurar para neta.

        - E abes se o puto gosta da fruta? – Perguntei.

        - Já ouvi dizer que andou envolvido com um tipo mais velho como tu! Mas não sei se é verdade. Não te esqueças que amanhã é o meu dia, o resto é contigo. Vou mas é trabalhar.

     Conforme se chegou junto a mim, assim lá se foi embora, deixando-me um pouco atrapalhado.

     Continuei naquela troca de olhares com o chavalo, que pelo sim pelo não cá para mim, mais um menos, um estou como o outro que diz “Eu quero é vir-me”.

     Mesmo que o Carlos notasse o que se passava, já lá vai o tempo em que fazia escritura de amancebamento com os meus amigos. Já amei e dez amámos muito para estar agarrado a preconceitos. Hoje não posso ser fiel mesmo a quem me dá muito prazer, até porque não vive comigo. Se assim fosse, seria um caso diferente mas já tive várias experiências dessas e como sempre tudo acabou, porque nada na vida é para sempre. A única coisa certa é a morte e enquanto ela não vem, o melhor é gozarmos a vida o melhor possível.

O tempo foi passando e já estávamos naquele olha que não olha aí para uma hora e eu conjecturando os meus pensamentos. Como nada iria acontecer resolvi ir-me embora. A velhota já ia na segunda imperial e o casal de pombos continuavam na mesma.

     Levantei-me e fui até ao Carlos confirmar o dia de amanhã.

        - Estão tá combinado. Amanhã quando acordar telefono-te para me ires buscar. Disse o Carlos, acrescentando ainda. – Então não deu em nada!

        - Pois não! Também o que querias? Fico guardado para amanhã.

     O Carlos sempre com aquele sorriso de maroto atirou:

        - Assim ficas com mais vontade para amanhã. – e piscou-me o olho disfarçadamente.

 

II Cena

 

     Já estava dentro do carro a ligar o rádio e abrir a janela do pendura quando ouvi uma voz a vociferar: - Esta agora! Só me faltava mais esta.

     Olhei lá para fora a ver o que se passava.

     Era a velha, toda indignada porque tinha um pneu do carro, mesmo ao lado do meu, em baixo.

 

     A cena era um pouco caricata. A miúda vociferava: e agora como saímos daqui? A velhota só dizia: Mas eu nunca mudei um pneu! – ao que parecia era ela a condutora – O rapaz nas calmas ia dizendo que o melhor era chamar o pai ou o reboque.

     Com tanta atrapalhação, sai do meu carro e prontifiquei-me a mudar-lhes o maldito, que no final até foi para mim, o bendito pneu.

        - Ai!!! O Senhor é um santo que nos apareceu – disse a velhota, apresentando-se como D. Maria Helena, a neta Eugénia e o namorado. João. Cumprimentei todos apresentando-me também

     Feitas as apresentações, pedi as chaves à senhora e fui abrir o porta-bagagens onde estaria o pneu suplente. Azar deles! O pneu estava sem ar.

        - Minha querida senhora! Este pneu não serve para coisa alguma, está completamente vazio.

        - E agora o que faço? Meu querido senhor? – Disse a velhota muito atrapalhada.

        - Agora só um reboque. Tem aí o papel do seguro?

        - A velhota bem buscava na carteira e no porta-luvas mas nada. Nem qualquer documento do carro, muito menos os documentos do seguro.

        - Sabe Senhor! O carro é do meu marido que está fora e certamente ele é que tem os documentos e foi coisa que nunca me preocupei.

        - E se fosse apanhada por uma operação stop? O que fazia?

     Olhe socorria-me do pai do João que é advogado.

        - Pois! É sempre bom ter um advogado na família! – Atirei eu -.

        - Mas eu ainda não sou da família! – Emendou o João -.

        - Não é mas vai ser. – Retorquiu a velhota meia indignada – Porque é que o menino não liga para o seu pai? Pode ser que encontre uma solução.

        - Não havendo outra alternativa, o que podemos fazer? – E pegou no telefone e ligou ao pai contando o que estava a acontecer.

     Pela conversa, parecia que o pai não estava lá muito satisfeito, pois o puto só dizia: - Pois sim! Tens razão! Depois falamos! Mas agora só queria, era uma ajudinha. Desligou o telefone e informou que o pai ia mandar um amigo para resolver o problema.

     Posta esta situação parcialmente resolvida, fechamos os carros e como se já fossemos conhecidos de longa data, depois da avó toda moderna me convidar voltámos para a esplanada já que ali nada se podia fazer.

     A velhota prontificou-se a mandar vir as bebidas e como tagarela que era começou por contar quase toda a sua vida. Era casada com um vendedor que andava sempre por fora e a sua companhia era a neta que tinha os pais no estrangeiro. Morava no mesmo prédio do João e embora não se relacionasse muito com a sua família, achava que era um bom partido para a neta. Até andavam na mesma escola embora em anos diferentes. A neta queria seguir para comunicação social e o João para advogado como o pai.

     »Para esta casamenteira, estava ali o homem ideal para impingir à neta, pois teria um bom futuro e o rapaz até já era bastante abastado «Foi o que me apercebi de toda a conversa.

     A rapariga nem truz nem mos. Palavras daquela boca nada saiam.

     Quanto ao rapaz parecia estar alheio a todo o monólogo daquela velha casamenteira De vez em quando encolhia os ombros, piscava-me um olho e dava um leve sorriso como a gozar o prato atirando quando em vez uma laracha.

     O Pedro entretanto já tinha saído para festa, portanto não estava por ali para gozar o prato, mas no dia seguinte iria contar-lhe o passado.

     Passado um tempinho apareceu um tipo ao nosso lado que se dirigiu a nós:

        - Então João! O que aconteceu? Vamos ver se resolvemos o problema.

     Era o tal amigo do pai que vinha com dois outros amigos.

    Dirigimo-nos todos para o carro, verificaram o que se passava e tentaram utilizar o pneu suplente do carro que traziam, mas este também não dava pois era de um carro mais pequeno.

        - E agora o que fazemos? – Disse a avozinha metediça toda atrapalhada.

        - Agora o carro fica aqui e mais logo ou amanhã o Sr. Doutor manda cá um reboque.

     A velhota ainda ficou mais apavorada:

         - Então e fica aqui toda a noite?

        - Ele sozinho não vai a lado algum! – Disse o João em tom sarcástico.

        - Pois o problema não é o carro! – Disse o condutor salvador da situação – O problema é que só posso levar dois no meu carro. Se for apanhado por uma operação Stop, fico feito ao bife pois a lotação do carro é de cinco lugares.

        - Mas com jeitinho não podemos ir os três? - Alvitrou a avozinha toda atirada para a frente -

     Perante tanta atrapalhação foi o memento para meter a minha colherada no meio do diálogo que não chegaria a lado algum.

         - Mas onde os senhores moram?

         - Na Ericeira! – Respondeu prontamente o João.

        - Já agora como também não consegui resolver o problema, vão as senhoras com vocês e eu levo o João. Só tenho um problema como já é tarde e deixei as portas do quintal abertas, tenho de passar por casa para as fechar. – Prontifiquei-me.

     O João atento ao que me esta a oferecer, foi rápido a responder:

         - Eu alinho. Vão as senhoras com o Eduardo e se o meu pai já estiver em casa, contam-lhe tudo direitinho o que se passou e dizem que eu vou mais tarde com a boleia deste amigo.

     E assim foi, fecharam o caro, foram-se embora e o João entrou no meu e dirigimo-nos a minha casa.

 

III Cena

 

     Os olhos do João quando entrou no carro, reparei que brilhavam ao mesmo tempo que com um sorriso nos lábios perguntou:

        - É hábito levar a sua casa assim um desconhecido?

     Tive de me rir com a pergunta, pois nunca alguém me tinha feito tal pergunta

        - Não és exactamente um desconhecido… começámos com uma troca de olhares, tentei ajudar-te no problema do carro, já conheço a tua namorada e a avó e sei que és pessoa de bem.

     Não demorou muito tempo a dar logo a resposta:

        - Você está enganado! Primeiro não sou namorado da Eugénia! Somos somente colegas na mesma escola. A Avó é como sabe que eu tenho gito quer-me para seu namorado, mas já lhe topei o jogo.

        - Então porque aceitas o jogo?

     João levou um certo tempo a responder, mas acabou por o fazer:

         - è tudo por causa dos meus pais. Embora principalmente o meu pai não goste muito deles é a forma de me deixarem em paz com os meus amigos.

     Engoli em seco com tal declaração. Já estávamos à porta de minha casa quando retorqui:

         - Mas o que é que o teu pai tem a ver com s teus amigo?

        - É que os maus amigos normalmente são mais velhos que eu e ele não gosta muito.

        - Mas tem alguma razão especial para ter essa atitude?

        - Estou farto de lhe dizer que é com os mais velhos que aprendo alguma coisa, mas ele não entende.

        - É por essa razão que estamos aqui? – Perguntei já na altura em que estava a arrumar o carro -

        - Se calhar até é! A malta da minha idade nada tem para me dar e depois têm a língua muito comprida. São capazes de serem como eu mas depois alguns armam-se em homofóbicos só para parecerem aos olhos dos outros muito homenzinhos, mas são piores que eu.   tão aguento os ataques da velha, dou uns passeios com a neta e fica todo o mundo contente e satisfeito.

      Já tinha metido o carro na garagem e saímos directamente para casa ficando a conversa por ali.

2.º Episódio já a seguir

 (para maiores de 18 anos) »AQUI«

Entretanto, saboreiem este Poema “Depois do Amor” com whitney Hustone

Nelson Camacho

 

Estou com uma pica dos diabos: a avozinha
música que estou a ouvir: Depois do amor
publicado por nelson camacho às 20:56
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2 comentários:
De Advailson a 20 de Maio de 2013 às 09:42
Muito bom
De nelson camacho a 25 de Maio de 2013 às 03:37
Meu caro, Obrigado pelo seu comentário. Assim passo a ter forças para continuar a escrever este tipo de histórias. NC

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