Quarta-feira, 24 de Julho de 2013

Confissão de um Gay cota - III Parte

o salão de nelson camacho d'magoito

III Capitulo (ver II Parte)

Quando descobri a inquietação da Isabel

 

     A porta do salão é daquelas divididas em duas partes e com vidrinhos opacos que se movimentam lateralmente ficando embebidas nas paredes. Quando se fecham, por vezes fica entre as partes uma fresta por onde sai o som das palavras das conversas que por ali se fazem.  Como os vidrinhos são foscos, só se vêm vultos tanto de um lado como do outro, se não forem a audição das palavras dificilmente se consegue vislumbrar quem são os intervenientes da trama.

     Foi o que aconteceu naquele dia.

     Do meu lado da porta que por ali passei inadvertidamente e como não fiz qualquer barulho do outro lado não sabiam que eu tinha parado a cuscar.

     E quem era do outro lado?

     Duas vozes de mulheres. A minha e sua mãe /minha sogra).

     Dizia a minha para sua mãe:

 

        - Não sei o que se passa com o Fernando há dois meses que não me toca.

        - Mas não te toca como?

        - Não me procura como mulher.

        - Ó filha e já abordaste a questão? Ele foi sempre assim tão espaçado no tempo?

        - Não! Até havia dias que chegava a casa mais tarde e era quando vinha com a vontade toda, mas ultimamente tem sido uma desgraça.

        - Mas aconteceu algo de estranho entre vocês? Porque não falas abertamente com ele?

        - Ele diz que é do stress lá do trabalho que tem tido muitas preocupações com falta de trabalho e certamente tem de despedir empregados.

        - Pois, Esta crise afecta toda a gente e em todos os casos. Olha o teu pai, já não sei se é da crise se é da velhice já não me procura mesmo. Mas eu já estou velha agora tu uma rapariga nova ainda não é tempo de arrumares as botas. Eu dou uma dica ao teu pai, pode ser que ele tenha alguma ideia.

        - Mãe, cuidado com o que vai dizer e ainda atirar mais achas para a fogueira.

 

     Afinal de contas era sobre mim que as galinhas estavam a falar.

     A Isabel queixava-se a sua mãe que eu já não a procurava como homem há algum tempo. Tinha razão. O nosso casamento nunca tinha sido muito famoso. Lembro-me deste ter sido orquestrado pelas famílias numa altura em que eu tinha saído de uma relação complicada  

     Para colmatar essa perda, enquanto namoro com a Isabel ia continuando a ter outros encontros casuais mas nada de sério.

     Ela tinha razão quando se queixava a sua mãe que eu por vezes principalmente quando chegava tarde a casa era mais viril.

     Tinha razão! É nessas noites, eu tinha estado com alguém sexualmente e transportava para casa os restos do prazer que tinha tido lá fora.

 

 

IV Capitulo

5 Anos antes

 

Mãe costureira

     (Como aparte a este conto e com este quadro pintado a oleo sobre tele de Joseph de Carmo de 1916 quero prestar a minha homenagem às mulheres costureiras contando a sua história.

 

     No século XVII, as costureiras só podiam retocar e ajustar peças para alfaiates e camiseiros… o trabalho era dominado pelos homens. Em 1965  tiveram o trabalho reconhecido, com restrições, como por exemplo, não podiam ter seu próprio atelier. Com a revolução industrial veio a padronização da costura e as costureiras atendiam clientes, a burguesia, que recorriam as costureiras para fazer algo diferente do que estava no mercado…

Dia 25 de maio é o Dia das Costureiras!)

 

 

     Minha mãe não tonha muito jeito para as artes femininas de contura então comprou uma máquina de tricutar e uma tarde de um sábado dei com ela a trocoar uma cobertura de cama em renda. A minha alma ficou parva com aqueles afazeres e perguntei:

 

        - Qual é a ideia? Não lhe chega o trabalho no escrtório e agora deu numa de tricotadeire? Está-lhe a falter o dinheiro?

 

        - Não filho! Estou a fazer uma colcha para a tua cama para a noite de casamento!

 

     Apanhei um susto dos diabos, pois não sabia que ia casar e ripostei prontamente:

 

        - Mas qual casamento?.

        - Mas não é naturar ires casar?

        - Sim!.. Talvez!.. Mas quando e com quem?

        - Não te temos visto com namoradas nem sabemos se tens alguma e eu o teu pai e os Mendonça, resolvemos que seria interessante começares a namorar com a Isabel. São os dois da mesma idade. Ela já está formada têm dinheiro e cremos ser um bom partido para os dois.

         - Mas Mãe!... Eu até mal conheço a rapariga.

        - Pois vais passar a conhecer melhor. Amanhã veem cá para um churrasco e logo conversamos.

 

     Aquele domingo foi uma seca!

 

     Os Mendonça a atirarem-me a filha e os meus pais na mesma ou ainda pior.

     A Folhas tantas resolvi ir até ao meu sótão refugiar-me daquele atentados, mesmo assim, não me safei e subido a escadas pé ante pé lá entrou a Isabel toda lampeira com uma conversa sem nexo.

     Por mais que quisesse manter uma conversa mais séria, naquele primeiro contacto, digamos de apresentação não passou de simples monólogos que se basearam em ela querer saber como iam os meus estudos, qual a área que queria seguir e pouco mais. Falamos dos nossos gostos literários e musicais. Entretanto chegou a hora de jantar

     A empregada subiu a escadas e informou que o jantar iria ser servido dentro de quinze minutos.

 

     Para terminar aquele fastidioso dia, depois da refeição fomos até ao salão onde tomamos os cafés da praxe.

 

     Aqueles almoços e jantares em minha casa prolongaram-se por algum tempo. A conversa era no geral, questões do trabalho lá do escritório, já que trabalhavam todos no mesmo, menos eu. Também meus pais e os da Isabel de vez em quando atiravam achas à fogueira no que dizia respeito a um possível namoro com a Isabel.

     Mais tarde senti-me na obrigação de a convidar a um cinema. Dias depois foi a vez de uma ida ao teatro. Mais um cinema e mais um teatro e finalmente um fim-de-semana na Figueira da foz, com toda a família.

     Foi nesse fim-de-semana em que na noite se sábado cheguei ao hotel por volta das seis da manhã.

     Tinha ido sozinho ao Casino e tinha conhecido um moço que estava de férias e morava em Lisboa.

     Como é óbvio no domingo todo mundo foi para a praia, mas eu fiquei na cama.

     Vindos da praia, a Isabel foi ter comigo ao quarto (ainda estava deitado) e deitando-se o meu lado contou como tinha sido a manhã na praia.

     Não sei o que se passou comigo na altura e lembrando-me do moço que tinha conhecido no casino na noite anterior e beijei-a.

     Estava dado o passo para o que os nossos pais queriam. O começo do nosso namoro.

     Dali para a frente fizemos um namoro quase normal e quando digo quase normal é que durante oito meses, nunca dei assim muita assistência. Passeávamos, íamos ao cinema e ao teatro, umas vezes almoçávamos ou jantávamos em casa de cada um mas quando aconteciam os jantares em casa dela assim que ficava livre pirava-me para umas noitadas em bares de temática gay e mantinha como amigo o Pedro (o tal moço que tinha conhecido na Figueira da Foz e morava em Lisboa) era o meu amigo, companheiro, confidente e amante.

     Por pressão constante de meus pais. Aquele namoro durou oito meses até ao casamento.

 

Casamento  do tretas

     Aquele dia foi uma festa de arromba, teve sermão, missa canyada. Foi filmado e tudo.

 

     Na véspera do casamento fiz uma festa de despedida de solteiro no meu sótão com alguns amigos e como não podia deixar de ser com o Pedro que já era conhecido lá de casa e que depois de todos se irem embora, ficou para curtirmos o resto da noite somente os dois. Nem fui para o meu quarto. Ficamos no sofá.

     De manhã quando acordamos descemos para o pequeno-almoço, tomarmos banho e vestir-me com a ajuda do Pedro para o fatídico dia.

     O que se passou naquela noite e o facto de o Pedro ter lá ficado, para os meus pais foi a coisa mais normal, pois já estavam habituados às minhas festas e tinham muita consideração e amizade pelo Pedro.

     O casamento foi uma festa. Meteu sermão missa cantada. No copo de água o Pedro até Abreu o baile com a Isabel.

    Quando chegou o fim da festança, abalámos para o Aeroporto com destino à Madeira onde estivemos durante uma semana para a lua-de-mel.

      Porque eu fiz questão quando voltamos, ficamos em casa de meus pais, pois ainda não tínhamos a nossa vida organizada economicamente para um apartamento e também me custava deixar as benesses que tinha inclusive o meu sótão querido que servia para continuar com as minhas festas.

     Também era a forma de minha mãe desculpar-me perante a Isabel de algumas das minhas chegadas a casa de manhã.

     O tempo foi correndo e nove meses depois lá veio o pimpolho todo sorridente e como diziam. Parecido com o pai.

 

     Como qualquer casal que se preze, tínhamos os nossos momentos bons e outros nem tanto. Sexualmente, sempre tinha dito que queria da Isabel mulher amiga e amante o que nunca aconteceu. Talvez por fazer comparações com o que tinha fora do casamento. Já tinha acabado com o Pedro mas tinha arranjado outro amigo e depois outro e mais tarde ainda outro. Eu era um tipo bastante activo e talvez com a Isabel isso nunca tivesse acontecido por preconceitos.

     Os tipos chamados normais têm amantes, eu que me tinha transformado num bissexual nunca estava satisfeito e tinha um certo pudor em fazer coisas com a minha mulher que fazia em parte com meus amigos.

     E porque a vida é um fado.

 

Antes de perseguir este conto. Em homenagem ao meu querido Max com quem passei muitas noites, oiça o poema “NOITE”de Vaso de Lima Couto no Fado Menor na voz inconfundível de Carlos do Carmo

Segue»»» (ir para IV Parte)

 

 

       Nelson Camacho D’Magoito

     “Contos ao sabor da imaginação”

             de Nelson Camacho

Estou com uma pica dos diabos:
música que estou a ouvir: Noite
publicado por nelson camacho às 18:43
link do post | comentar | favorito
|

.No final quem sou?

.pesquisar

 

.Fevereiro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. Namorados

. A Intrusa

. Sábado chato para um amig...

. Um Recado

. As Borboletas

. Estou na prisão do tempo

. As minhas procuras no Nat...

. Pequenas coisas

. A história do Pátio do Ca...

. Finalmente libertei-me.

.arquivos

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Janeiro 2009

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Sai do armário e mãe pede...

. Eurovisão

. Depois de "All-American B...

. Raptada por um sonho ...

. Crónica de um louco senti...

. Terminei o meu namoro!!‏

. Dois anjos sem asas...

. Parabéns FINALMENTE!!!!

. Guetos, porque não?

. “Porque razão é preciso t...

.A Tua visita conta

web counter free

.Sempre a horas para criticar

relojes web gratis

.Art. 13, n.º 2 da Constituição

Ninguém pode ser privilegiado, benificiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.
blogs SAPO

.subscrever feeds